
Ouça Varèse. Sem conceitos.


Ravel, por Henri Manguin
Surgida há praticamente dois anos, a editora virtual Mojo Books tem uma proposta diferente e bacana: transformar músicas ou álbuns em livros. O slogan é: "Se música fosse literatura, que história contaria?" Já existem 66 livros disponíveis para download gratuito, todos no formato de um CD, caso o leitor tenha interesse em imprimi-los. Mas a idéia é ler na tela mesmo. Por isso, títulos como "Ok Computer" (Radiohead), escrito por Rafael Castro; "Back to black" (Amy Winehouse), por Fernanda Nascimento; e "Transa" (Caetano Veloso), por Herculano Neto e Vanessa Rodrigues, têm, em média, 30 páginas, para não cansar o leitor. Todos os Mojos Books são signatários do Creative Commons e qualquer pessoa pode mandar o seu, só precisa ser baseado em CD que ainda não tenha sido transformado em livro.
A idéia é tão boa que não poderia faltar HQ nesta história. E a primeira acaba de ser lançada pela Mojo Books. O título é "Bela Lugosi's dead", o clássico do Bauhaus. A adaptação foi feita pelo roteirista Leo Martinelli e pelo ilustrador Raphael Salimena. O estilo gótico da banda inglesa está lá, em cada quadrinho, mas com muito bom humor e, além do ator Bela Lugosi como personagem, um outro que também interpretou o Conde Drácula no cinema: Christopher Lee. Além de "Bela Lugosi's dead", há uma Mojo Comix de número zero disponível - como todo o resto - para download no site: "Strawberry fields forever" (The Beatles), com texto de Dennis Anderson e arte de Jean Okada. Experimente ler qualquer um deles ouvindo o álbum correspondente.
Graciliano Ramos, um dos mais importantes escritores da nossa literatura. Escrita seca, áspera, agressiva. Seus romances, não muito longos. Fazia na prosa algo que João Cabral de Melo Neto fazia na poesia: tinha a rara habilidade de expressar muita coisa com poucas palavras. Há uma constante busca do significado da alma e do pensamento humanos. Nas suas narrativas, existe uma tensão crescente entre os personagens. A visão negativista do autor transforma as pessoas em bichos. Em Vidas secas, talvez a única criação em que o autor demonstra alguma compaixão humana, o personagem mais humano, na minha opinião, é justamente a cachorra Baleia. Na obra do escritor alagoano, há também espaço para críticas sociais, como no já citado Vidas secas e principalmente em Memórias do cárcere. Neste há duras críticas à política brasileira, críticas que ainda são atuais. Naquele está presente a denúncia da situação cruel pela qual passam os retirantes da seca do sertão nordestino - o que aliás, passados quase 70 anos do romance, ainda não mudou. Enfim, há dezenas de coisas na densa obra de Graciliano Ramos, que se eu fosse falar aqui não ia ter espaço. Leiamos seus livros: