quarta-feira

IONISATION

Números e constelações em Amor com uma Mulher, de Juan Miró

Essa semana ouvi Ionisation, de Varèse. Uma música construída apenas por instrumentos de percussão. Espanto. Onde achar melodia, onde achar forma, onde se segurar? A primeira audição, a primeira folheada na partitura, tudo ainda muito verde, mas não posso deixar de compartilhar contigo essa primeira impressão.

Ionisation é uma obra de arte de identidade própria, com a grande riqueza da combinação dos sons percussivos criando uma paisagem sonora peculiar, como na pintura de Kandinsky e Miró.

Ionização, título que associa o fazer música com a química. Assim como os antigos, Varèse sabia do poder mágico de sua arte. Música e alquimia eram coisas interligadas em tempos passados, como na Renascença e no Barroco. A música era a verdadeira Harmonia do Universo. A ciência foi avançando tanto pra um lado, a música tanto pra um outro, que uma não precisa mais da outra. E o século XX e o nosso século são épocas extremamente científicas. Tudo a ciência explica.

Talvez Ionisation queira retomar esse elo perdido entre música e ciência.

Ouve Ionisation. Pelo menos uma coisa que Ionisation pode te trazer: teu ouvido vai mudar, pra melhor ou pra pior, mas vai mudar. Novas observações virão, minhas e de outras pessoas. E gostaria que tu, caro leitor, me corrigisse no que faltei e expressasse tua opinião também.

Link para Ionisation (Youtube)

Lucas Oliveira de Moura Arruda.

Edgar Varèse


Edgar Varèse nasceu em Paris em 1883; faleceu em Nova York em 1965. Em seus oitenta e dois anos de vida, presenciou guerras, mudanças radicais no mundo da arte, e foi o precursor de várias tendências da música da segunda metade do século XX: música eletroacústica, experimentalismo. Questionou as regras da música ao conhecê-la a fundo, criou suas regras, sem precisar explicá-las. Talvez daí venha o pouco conhecimento de sua obra, porque a música do século XX ainda precisa de explicações. Infelizmente, ouvir não é o suficiente. Todos têm preconceitos e conceitos do que é a "melhor música". A música Culta, ou a música Popular. Infelizmente esses conceitos pesam na hora de ouvir uma música fora de qualquer desses esquemas.

Ouça Varèse. Sem conceitos.

terça-feira

MIRÓ

Interior Holandês, 1928

quarta-feira

Seminário Carrión apresenta ao Recife grandes violonistas

Olá amigos leitores. Agora em setembro, de 14 a 18, será realizado pelo Conservatório Pernambucano de Música o II Seminário de violão José Carrión, homenagem ao saudoso músico e professor, formador de tantos talentos musicais de nossa terra. Vindo da Espanha, trouxe para nós a herança da Moderna Escola de Violão, que teve como grande bandeira Francisco Tárrega. Foi por muito tempo professor de Violão e Violoncello no Curso de Música da Universidade Federal de Pernambuco. Entre tantos que com ele estudaram e guardam boas lembranças, estão Djalma Marques, Mauro Maibrada, Dinara Pessoa, Henrique Annes, Vital Joffily, Napoleão Costa Lima.

O evento contará com a presença célebre de Mario Ulloa, professor de Violão da UFBA, Henrique Annes, Vital Joffily, e o espanhol Paco Fernández, guitarrista flamenco espanhol trazido pelo Instituto Cervantes. Além daqueles que estão construindo carreiras de sucesso, como Newton Messias, Ricardo Arôxa e João Paulo Pessoa. Virá também o luthier Lúcio Jacob com suas novidades em instrumentos.

Serão masterclasses, palestras e recitais. Teremos na programação desde o repertório consagrado do violão - o Concerto de Aranjuez, solado por Mario Ulloa; até músicas contemporâneas, como os Impromptus de Richard Bennett, tocados por João Paulo Pessoa, e a Libra Sonatina de Roland Dyens, tocada por Ricardo Arôxa.

A programação está no site:
http://www.eventos.mus.br/seminariocarrion/

As inscrições para os masterclasses devem ser feitas no site, e os concertos e recitais são totalmente de graça.

Abraço.

sábado

Bertrachte, Meine Seel, de Bach

Caravaggio: Flagelação de Cristo, 1607


"Considera, minha alma", faz parte da Paixão Segundo São João, de Johann Sebastian Bach. É uma meditação sobre o sofrimento de Cristo com sua coroa de espinhos. O pequeno arioso (canção para solista) é escrito para voz masculina de Baixo, com acompanhamento de duas violas d'amore, alaúde e órgão. Música essencialmente barroca pelo conflito interno extremamente torturado. A música é essencialmente pictórica, representando por meio de sons o que normalmente vemos em pintura. É um aspecto essencial da música barroca e da obra de Bach. Assim, a instrumentação, a harmonia, a curva melódica, tudo isso é pensado com um propósito: expressar estritamente a idéia de um texto.

No barroco cada instrumento possui uma carga de simbologia, algo exprssado pelo seu simples uso em uma música. Do mesmo modo se tratavam as vozes humanas, as combinações melódicas, os gestos musicais. Para o texto áspero sobre Cristo, Bach utiliza voz de Baixo, que sempre representa o Cristo nas Paixões e Cantatas de Bach; e um alaúde, em seu tempo já um instrumento arcaico (embora Bach tenha lhe dedicado algumas peças, como transcrições de suítes para violoncello e violino). A sonoridade áspera do alaúde pode ser considerada uma representação dos espinhos da coroa dolorosa. Um aspecto extremamente belo da observação dessa música. Mais impressionante é observar que, graficamente, a coroa também está representada pelo alaúde, escrito em clave dupla.

Esse aspecto é essencial para compreender a música de Bach em si e a música barroca. Algo que pode hoje ser considerado até mesmo infantil, para aquela época fazia sentido e muitas vezes constituía o motivo para uma composição. A gente tem de se lembrar que na época não havia televisão, nem cinema; o modo de descrever as coisas, de captar o movimento de alguma coisa, era muito mais limitado - pintura, escultura, literatura e, principalmente, a música, o teatro e a dança tinham esse papel.

Algo que podemos entender não só para saber ouvir a música barroca, como para saber criar a nossa música, a música do nosso tempo, como fez Bach no seu tempo.

Ouça
Bertrachte, Meine Seel, de Bach : Clique aqui

quarta-feira

AS SEIS CORDAS

Picasso: Violão (1913)

O Violão
Faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

La guitarra
hace llorar a los sueños.
El sollozo de las almas
perdidas
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarántula
teje una gran estrella
para cazar suspiros
que flotan en su negro
aljibe de madera.

Federico García Lorca

segunda-feira


Banda Sinfônica comemora o Dia da Música com todo ecletismo

Canção de Milton Nascimento, coletânea de obras de big bands, sucessos da Broadway, frevo-de-rua e trilha sonora de filme famoso estão no repertório do concerto desta segunda-feira (24/11), no Teatro do Parque, com entrada franca. No final da apresentação, serão sorteados mais 25 exemplares do primeiro CD da Banda

Começar a semana ouvindo obras musicais de qualidade, interpretadas por músicos consagrados, em uma área central da cidade e sem precisar pagar um centavo sequer. É essa oportunidade que a Banda Sinfônica da Cidade do Recife proporciona ao público recifense, nesta segunda-feira 24 de novembro, quando realiza, às 20h, no Teatro do Parque, o IX Concerto Oficial – Temporada 2008.

Com regência do maestro Nenéu Liberalquino, o concerto homenageia o Dia Internacional da Música, comemorado em 22 de novembro. A data foi escolhida por ser também o Dia de Santa Cecília, considerada a padroeira da música e dos músicos. De acordo com a tradição, a santa transmitia tanta doçura ao cantar que, certa vez, um anjo desceu do céu só para ouvi-la.

Marcado pelo ecletismo, o repertório do concerto incursiona por vários gêneros, exemplificando diversas formas de expressões musicais. A primeira obra da noite é Cravo e Canela, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Em seguida, será executada uma coletânea de música de famosos grupos instrumentais norte-americanos, intitulada Big Band Favorites, de vários autores.

O concerto segue com Caravan, de Duke Ellington, Juan Tizol e Irving Mills, e uma seleção de obras de grande sucesso em teatros dos Estados Unidos, batizada Broadway’s Best. Dela fazem parte as seguintes composições: The Phanton of the Opera, de Andrew Lloyd Weber; I Dreamed A Dream, de Claude-Michel Schönberg; The Old Gumbie Cat, de Andrew Lloyd Weber e Sun and Moon, de Claude-Michel Schönberg.

As outras obras do concerto são: Cambaleando, de Marcos Diniz, frevo-de-rua vencedor da mais recente edição do Concurso de Música Carnavalesca Pernambucana; Vozes do Agreste, de Villani-Côrtes; e Parque dos Dinossauros, de John Williams.

No final da apresentação, serão sorteados mais 25 exemplares do primeiro CD da Banda Sinfônica, lançado no dia 7 de outubro, quando o grupo comemorou os 50 anos de sua fundação.

Tradicionalmente realizado na última quarta-feira do mês, o concerto da Banda Sinfônica em novembro foi antecipado devido ao Festival de Teatro, que terá peças encenadas no Teatro do Parque.

ENTRADA FRANCA

Maiores Informações:
http://www.neneuliberalquino.com/

sábado

MAURICE RAVEL

Ravel, por Henri Manguin

"A obra de Ravel está ao abrigo dos anos e dos séculos, na medida em que escapa aos modismos e se submete a normas formais implacáveis. Como Fedra e a colunata do Louvre, as grandes obras de Ravel desafiam o tempo. Elas são de um material sólido e construídas dentro das regras. E, se pertencem a todas as épocas, é, talvez, porque souberam exprimir totalmente o seu próprio tempo."

Pierre Petit
Ouça as músicas de Ravel:

Bolero - parte 1, parte 2
La Valse
Rapsodie Espagnole
Le Tombeau de Couperin

Clique aqui para saber mais sobre Ravel

E se música fosse HQ?

Surgida há praticamente dois anos, a editora virtual Mojo Books tem uma proposta diferente e bacana: transformar músicas ou álbuns em livros. O slogan é: "Se música fosse literatura, que história contaria?" Já existem 66 livros disponíveis para download gratuito, todos no formato de um CD, caso o leitor tenha interesse em imprimi-los. Mas a idéia é ler na tela mesmo. Por isso, títulos como "Ok Computer" (Radiohead), escrito por Rafael Castro; "Back to black" (Amy Winehouse), por Fernanda Nascimento; e "Transa" (Caetano Veloso), por Herculano Neto e Vanessa Rodrigues, têm, em média, 30 páginas, para não cansar o leitor. Todos os Mojos Books são signatários do Creative Commons e qualquer pessoa pode mandar o seu, só precisa ser baseado em CD que ainda não tenha sido transformado em livro.

A idéia é tão boa que não poderia faltar HQ nesta história. E a primeira acaba de ser lançada pela Mojo Books. O título é "Bela Lugosi's dead", o clássico do Bauhaus. A adaptação foi feita pelo roteirista Leo Martinelli e pelo ilustrador Raphael Salimena. O estilo gótico da banda inglesa está lá, em cada quadrinho, mas com muito bom humor e, além do ator Bela Lugosi como personagem, um outro que também interpretou o Conde Drácula no cinema: Christopher Lee. Além de "Bela Lugosi's dead", há uma Mojo Comix de número zero disponível - como todo o resto - para download no site: "Strawberry fields forever" (The Beatles), com texto de Dennis Anderson e arte de Jean Okada. Experimente ler qualquer um deles ouvindo o álbum correspondente.

Fonte:http://oglobo.globo.com/blogs/Gibizada/

quinta-feira

Música e Literatura

Saudações! Por estes tempos estou embrenhado na leitura de clássicos da Literatura. Aí vocês perguntam: "Ué, mas você não é músico?" Acontece, gente, que a Música e a Literatura não estão tão longe assim. Bem, mas se eu for justificar aqui, vou acabar escrevendo uma tese sobre a relação entre Música e Literatura (o que, aliás, o nosso Mário de Andrade defendeu muito bem). De qualquer modo, digo que estou tirando muito proveito dos conhecimentos adquiridos. (Esse é um ponto fundamental) Independente de preconceitos, acho que nós devemos encarar todos os tipos de arte como complementares uns dos outros, formando assim um todo que acaba por definir o que é o ser humano. Prestem atenção: a Literatura ajuda a aguçar a nossa sensibilidade, e até a ver o mundo de outro jeito. A Literatura, longe de ser uma arte esquizofrênica, tem uma função social muito importante (lembrem do Castro Alves e a campanha abolicionista...) Essa estória de separar Música e Literatura como inimigos é coisa de gente que só é sensível a dinheiro. Bem, espero ter dado um bom recado. Procurem perceber a harmonia das palavras da Língua Portuguesa...